ATRIBULAÇÕES DE UM MONGE COPISTA
Alguém deveria prevenir os aspirantes a escritor da existência da revisão. Quando se compra um livro imagina-se, geralmente, que está ali o fruto de alguma inspiração e de umas noitadas de trabalho (coisa de prazer e êxtase). Não é bem assim. Um romance é fruto de um longo trabalho de investigação, tentativa de domesticação de ideias díspares e muitos, muitos dias em que não se fez mais nada. Com o tempo e a experiência, este trabalho torna-se, ao contrário do que se possa pensar, mais lento e moroso. Os pormenores ganham uma importância extraordinária e a compreensão de que nada deve ser deixado ao acaso, apossa-se de nós.
Por isso, nesta noite, em que vou terminar de avalizar e acrescentar o enorme esforço do revisor, vejo as 397 páginas, subdivididas em 89.792 palavras ou 514.042 caracteres, como uma paisagem extensa que aguarda, tranquila, os leitores. Debruço-me sobre as sinalefas vermelhas e sobre as frases que construí ao longo destes anos com a concentração do copista. E constato que a impaciência que me tomava dantes pelo aperfeiçoar dos textos escritos desapareceu.
Resta a serenidade e, se tiver sorte, a Literatura.
Sem comentários:
Enviar um comentário